No discurso de abertura da 63ª sessão da Assembléia das Nações Unidas,
em Nova York, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que
"chegou a hora da política" para a resolução da crise financeira
mundial e listou uma série de ações do Brasil que, a seu ver,
justificam a inclusão do país no Conselho de Segurança da ONU.
"Os
presságios que vinham se avolumando são hoje uma dura realidade. A
euforia dos especuladores transformou-se em angústia dos povos, em uma
sucessão de naufrágios financeiros que ameaçam economia mundial. É
chegada a hora da política. Somente a ação determinada dos governantes,
em especial naqueles países que estão no centro da crise, será capaz de
combater a desordem que se instalou nas finanças internacionais", disse
Lula.
"A
ausência de regras favorece os aventureiros e oportunistas em prejuízo
das verdadeiras empresas e trabalhadores", afirmou Lula, que citou o
economista Celso Furtado para defender uma maior regulamentação do
mercado financeiro. "É inadmissível que os lucros dos especuladores
sejam sempre privatizados e suas perdas invariavelmente socializadas. A
economia é séria demais para ficar nas mãos dos especuladores. A ética
deve valer também na economia".
Para Lula, "uma crise de tais
proporções não será superada com medidas paliativas". O presidente
brasileiro afirmou que, atualmente, os "organismos econômicos
supranacionais carecem de instrumentos" para controlar os mercados e
pediu a intervenção da ONU. "É preciso implantar soluções globais,
tomadas em espaços multilaterais legítimos e confiáveis, para que haja
mecanismos de controle e total transparência. Das Nações Unidas, máximo
cenário multilateral, deve vir uma resposta vigorosa às ameaças que
pesam sobre nós".
Em seguida, Lula discorreu sobre a "crise
alimentar que ameaça mais de 1 bilhão de seres humanos", a crise
energética "que se aprofunda a cada dia", ao aquecimento global e aos
riscos que a falta de um acordo na rodada de Doha traz ao comércio para
defender a necessidade de que uma ordem multilateral seja estabelecida.
"O
muro de Berlim caiu. Sua queda foi entendida como a possibilidade de
construir um mundo de paz, livre dos estigmas da guerra fria. É triste
constatar que outros muros foram construídos", afirmou Lula, criticando
barreiras impostas a imigrantes por países desenvolvidos.
Para
o brasileiro, "aos poucos vai se descartando o velho alinhamento
conformista. Não é uma postura de confrontação. Pelo diálogo direto,
sem intermediação das grandes potências, países em desenvolvimento têm
se credenciado a cumprir um novo papel em um mundo multipolar".
Em
seguida, o presidente citou ações como o Ibas, grupo de países que
reúne Brasil, Índia e África do Sul, o G-20, a Cúpula de países da
América do Sul e África, a Cúpula dos sul-americanos com países árabes
e a recém-criada Unasul -"o primeiro tratado em 200 anos de vida
independente que congrega todos os países sul-americanos"- para dizer
que "nosso norte, às vezes, está no sul". "Hoje, estamos procurando as
soluções dos nossos problemas contemplando as multiplas dimensões do
planeta", disse Lula.
Além das cúpulas multilaterais, Lula
defendeu a ação brasileira no Haiti ("onde ajudamos a reestabelecer a
paz") e o desenvolvimento dos biocombustíveis no país ("etanol de cana
e biodiesel diminuem dependência de combustíveis fósseis, criam
empregos e são compatíveis com a produção de alimentos") para criticar
a atual composição do Conselho de Segurança da ONU.
"A ONU
discute há 15 anos a reestruturação do Conselho de Segurança. Sua
representação distorcida é um obstáculo ao mundo multilateral que
desejamos. Considero muito auspiciosa a decisão de negociar amplamente
sua reforma", disse o presidente, mencionando resolução da semana
passada que marca para o ano que vem o início das discussões sobre uma
eventual ampliação do Conselho, com a possível inclusão do Brasil e de
outros países em desenvolvimento.
Fonte: Uol